Tema em discussão 

"Extremamente grave", diz ministro do Meio Ambiente sobre proposta do Japão para liberar caça de baleias

Evento da Comissão Internacional da Baleia (CIB) em Florianópolis votará sobre o tema nesta quinta-feira

O ministro do Meio Ambiente do Brasil, Edson Duarte, esteve nesta semana no encontro da Comissão Internacional da Baleia (CIB) em Florianópolis. Ele lamentou a não aprovação da criação do santuário para proteger as baleias, mas garantiu que o país continuará batalhando pela iniciativa. Também comentou sobre a proposta do Japão para liberar totalmente a caça comercial, classificando-a como "inoportuna e descabida". Confira os principais trechos da entrevista que ele concedeu ao Diário Catarinense:

O senhor avalia que a tendência é a comissão aprovar a liberação da caça comercial, como quer o Japão?
Não deve aprovar. Propostas de retrocesso do Japão não têm alcançado sequer metade dos países aqui presentes na comissão. A repercussão seria desastrosa, inclusive com efeitos comerciais que eu considero gravíssimos. Eu disse aos japoneses que uma sinalização nesse sentido seria uma atitude inconsequente, com uma reação mundial dos consumidores, da população em geral, inimaginável. De tal forma que vejo essa medida como inconsequente, inoportuna e extremamente grave. Não só pelos efeitos diretos, mas também pela simbologia em tempos de muita preocupação ambiental. Não vejo cenário para que aprove isso, que é uma atitude estranha vinda do Japão, que mostra uma contradição muito forte de um país de tecnologia avançada, desenvolvido, e que ao mesmo tempo defende posições que ficaram há mais de um século lá atrás. Entre o antigo que já passou e o novo, me parece um conflito muito mais existencial, porque a pesca comercial não representa nada significativo porque não há e nunca haverá mercado competitivo para carne de baleia.

O Japão realmente propôs uma mudança no sistema de votação, mudando a necessidade de quórum qualificado para maioria simples?
O Japão chegou a nos propor que p Brasil topasse mudar o quórum para maioria simples para aprovar o fim da moratória dizendo que com isso eles votariam em favor da criação do santuário. O Brasil jamais vai negociar o santuário em favor da caça, queremos o santuário exatamente para fortalecer a proteção às baleias e não o contrario. É uma proposta descabida e logicamente rejeitada. Os convidei foi para a reflexão no sentido de aprovar o santuário e outras medidas para fortalecimento da comissão.

Além do Japão, quais outras principais forças favoráveis à liberação da caça?
O Japão acaba liderando pequenos países que acabam tendo essa liderança econômica deles em relação à pesca. Isso é um equívoco. O Brasil também tem na pesca uma atividade muito importante e nós proibimos caça às baleias, lideramos uma campanha contra e isso não tem causado nenhum prejuízo à nossa atividade pesqueira. O Japão sempre se refere a sua cultura, mas culturas precisam também mudar e se adaptar aos tempos que estamos vivendo, de escassez, de mudanças climáticas e extinção de espécies. Algumas baleias são seriamente ameaçadas. O Japão diz que algumas espécies já alcançaram números de indivíduos que permitiriam a caça seletiva comercial. Ora, isso não se justifica e não nos dá garantia e segurança porque se, para fins científicos desde a moratória, já foram mortas mais de 50 mil baleias, imagina se isso fosse comercial.

Qual o impacto da criação do santuário não ter sido aprovada?
O mais importante é o sinal que o Brasil dá para o mundo. A luta pela preservação das baleias é importante histórica e temos reafirmado ela ano a ano, diante de um cenário de mudanças climáticas que indicam que precisamos continuar com essa luta. Pelo simbolismo e pela importância que o santuário tem. Essa área é o berçário de mais de 50 espécies de cetáceos. O Brasil vai continuar defendendo o santuário. Temos aliados na comissão que representam mais de 60% dos países na CIB e vamos trabalhar agora para convencer aqueles que têm resistido para indicar o quanto é importante criarmos o santuário não só pela importância concreta, mas também pelo simbolismo, o gesto que damos ao mundo na defesa desses animais.

Por quais motivos não foi aprovado, na sua opinião?
É o interesse da caça comercial, mas diria que mais que isso, é uma  preocupação de que a criação desse santuário possa indicar para a criação de outros e não só para baleias, mas para outras espécies. Segundo alguns países que têm na pesca uma atividade econômica de grande peso, como o Japão, eu acho que (a preocupação) é muito mais com o precedente. O que é estranho é não querer criar o santuário se a caça comercial já está proibida, então isso reforça a tese que o Brasil também tem defendido, de que a caça para fins científicos não está sendo usada apenas para pesquisas, mas para outros interesses. Tanto é que desde a moratória da caça comercial, em 1986, mais de 50 mil baleias já foram mortas naquilo que foi oficialmente contabilizado. Não é possível que essa quantidade seja usada pra fins de pesquisa ou consumo de aborígenes nativos que têm autorização para caçar.

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